Sobre aquilo que eu sei

Eu só posso escrever sobre o que eu sei. E o que eu sei é ser uma bailarina adulta que começou aos 21 anos, mas que se apaixonou por essa arte de uma forma tão grande que construiu toda uma vida – pessoal e profissional – em torno dela.

O que eu sei é registrar com o meu coração e o olhar aquilo que me encanta, me envolvendo profundamente com as imagens que capturo, dentro da minha carreira como fotógrafa de dança.

Sei como é colocar as mãos na barra e sentir acolhimento, pertencimento e paz. Conheço também a sensação de pisar em um palco, sozinha e em grupo, e do frio na barriga sentido na coxia. E insistir em dançar apenas por amor e para continuar sentindo o ballet atravessando o meu corpo.

Também sei ser plateia, com os olhos brilhantes de alegria ou marejados de emoção. Sei ser aluna, ouvinte, buscadora, e sei conectar mundos e fazer paralelos que poucas pessoas conseguem imaginar.

Não acho que eu saiba muito. Inclusive, quanto mais a gente estuda, mais a gente entende que tem ainda muito a aprender (é um tanto desesperador, na verdade. 😅). Mas hoje, mais madura, consigo enxergar valor naquilo que eu me proponho a compartilhar. Mesmo morrendo de medo de um dia acordar e pensar que poderia ter feito muito melhor, pensado mais, estudado mais, vivido mais (e eu sei que isso vai acontecer).

Por isso, vale dizer que meu artigo recém publicado, “O Ballet Como um Conto de Fadas: O repertório como um veículo simbólico”, é sobre tudo o que eu sei hoje, e sobre tudo o que acontece dentro de mim quando me conecto com um ballet de repertório. É a pesquisa e a reflexão que eu posso oferecer, dentro das minhas limitações e experiências vividas até então. Porque a verdade dura é que nunca vamos saber ou viver o suficiente. Estar pronta é uma ilusão e há muita beleza em se enxergar digna de algum feito, mesmo imperfeito. Por isso, apesar do medo, sempre soube que valeria a pena colocar esses pensamentos no mundo. Chamado de alma não se recusa.

Porque a verdade dura é que nunca vamos saber ou viver o suficiente. Estar pronta é uma ilusão e há muita beleza em se enxergar digna de algum feito, mesmo imperfeito.

Tenho muito orgulho desse texto, e espero que ele encontre quem precisa o encontrar. 🤍

Artigo publicado:
Lancelloti, Carolina. O Ballet como um Conto de Fadas: O repertório como um veículo simbólico
Repertório, PPGAC/UFBA, no. 42, pp. 1–12, 2026.

DOI: 10.9771/rr.v1i42.72028
Original publication (Portuguese): Repertório — UFBA